O convidado internacional do XXII Encontro Anual da Compós, Lawrence Grossberg, falou para alunos da Faculdade de Comunicação da UFBA. A entrevista foi veiculada no Facom News, jornal laboratório da disciplina Oficina de Comunicação Escrita de Jornalismo, ministrada pela Profª. Lia Seixas.

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Da Carolina do Norte para Salvador:

Lawrence Grossberg fala sobre suas expectativas sobre a Compós e das suas perspectivas sobre o atual cenário dos Estudos Culturais

por Ygor Bahia e Renata Almeida

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Convidado de destaque da 22ª edição do encontro Nacional da Compós, Lawrence Grossberg, da Universidade da Carolina do Norte, é umas das principais referências mundiais na área de Estudos Culturais. Após ter feito pós-graduação no Centre for Contemporary Cultural Studies na University of Birmingham, teve seu trabalho fortemente influenciado por Stuart Hall e Richard Hoggard. Autor também de centenas de artigos e cerca de 25 livros publicados, Lawrence ficou amplamente conhecido nos anos 90 por estudar a política da juventude pela perspectiva da música popular. Atualmente, seu trabalho está focado na necessidade de repensar os Estudos Culturais dentro de diferentes conjunturas geopolíticas. Nesta entrevista concedida por e-mail à equipe da Facom News, Lawrence fala sobre essa e outras questões relacionadas ao seu trabalho e sua participação na Compós.

De onde surgiu o convite para participar da Compós? Por que aceitou o convite?

Eu recebi um e-mail com a proposta. Como sou muito interessado em trabalhos de Estudos Culturais em toda a América do Sul, aceitei ir ao evento. Meus amigos de outros países, como a Colômbia, me dizem que existem alguns trabalhos muito interessantes acontecendo no Brasil.

O quanto a compreensão dos Estudos Culturais é importante para os estudantes de comunicação?

Acredito que a compreensão interdisciplinar das questões e o uso de ferramentas e conceitos dos Estudos Culturais, apesar de não serem disciplinarmente obrigatórios para a comunicação, podem ajudar a ter uma visão mais ampla.

Você falará, no curso da Compós, sobre os Estudos Culturais no tempo futuro, tema do seu último livro. Qual o conceito por trás deste trabalho?

Meu livro tenta argumentar que muito dos conceitos que definem e envolvem os Estudos Culturais foram formados em diferentes momentos geopolíticos e que podemos agora revisitá-los, usando as melhores ferramentas teóricas que temos para novamente pensar sobre modernidade, cultura, economia, poder, etc. Consequentemente poderemos, também, refletir sobre como nós entendemos a interdisciplinaridade, a educação e o trabalho intelectual. É um projeto um tanto ambiciso.

Nos anos 70, os Estudos Culturais eram muito influenciados pelo marxismo. Você considera que a ideologia de esquerda ainda seja marcante nos Estudos Culturais?

Bom, havia sim muitos marxistas nos Estudos Culturais nos anos 60 e 70, mas também havia anarquistas, socialistas, pragmatistas e, eu acrescentaria, vários conservadores. Então, enquanto algumas das pessoas que formularam os Estudos Culturais nesse período partiram de reflexões marxistas, outras foram por caminhos diferentes. É claro que os marxistas eram evidentes, pois Marx, afinal de contas, foi um nome extremamente importante na compreensão do contexto histórico e político. O problema é que a visão que alguns têm sobre o anti-capitalismo acabam por reduzi-lo. Porém, ainda acho sim que sua ideologia é influente nos Estudos Culturais, assim como as políticas de esquerda, em um sentido mais amplo.

Como os Estudos Culturais podem influenciar a política?

Pessoas comprometidas, como eu, com certos ideais, como o de liberdade, justiça, o direito a uma vida digna, e que se opõem a sistemas totalitários, e aos abusos de poder, precisam por meio de teorias, dizer o que está acontecendo no mundo. Caso contrário, esse papel ficará restrito somente à política, e ela cumprirá esse papel intelectual. Para se opor a isso precisamos contar melhor nossas histórias, compreender a nossa complexidade, e quem sabe entender como ela enche de incertezas, de forma tão poderosa, as vidas de tantas pessoas.

Você acha que o atual estado de niilismo e ceticismo das pessoas refletem um desapontamento com as antigas políticas de esquerda? Esse estado de insatisfação é decisivo para mudar a forma como as pessoas enxergam a política e a cultura popular?

A afirmação de que existe atualmente um grande estado de niilismo e ceticismo, apesar de simplista é muito verdadeira. Acho que a maneira como as pessoas se relacionam com o futuro está mudando. Muitos acontecimentos estão contribuindo para isso, como os próprios sentimentos de desapontamento, impotência, simulação e ceticismo. Não acho que isso seja resultado do fracasso das políticas marxistas, já que elas nunca existiram de uma forma concreta. Vejo uma contribuição maior, nessa conjuntura, dos intelectuais marxistas. Eles faracassaram ao insistir em repetir a mesma velha história política de sempre, sem levar em conta o que acontece no mundo, como ele se transforma. Da mesma forma, acho
que houve uma contribuição também de quem toma a opção contrária. Ambos os pontos de vista foram equivocados. Todavia, acho que precisamos nos questionar, durante nossas práticas, sobre as nossas relações com a política e com o popular, entender o nosso papel nesse mundo que se transforma.